domingo, julho 31, 2016

Sofrência foi o que Anthony Knivet viveu!



Se você acha que essas musicas de dor de corno e corações masculinos despedaçados são sofrência, precisa ler a Resenha de "As Incríveis Aventuras E Estranhos Infortúnios De Anthony Knivet", organizado por Sheila Moura Hue.

Sob o titulo original "Memórias de um aventureiro inglês que em 1591 saiu de seu país com o pirata Thomas Cavendish e foi abandonado no Brasil, entre índios canibais e colonos selvagens". O inglês que queria conhecer outros lugares em pleno mercantilismo deixa seu país e natal e embarca junto a tripulação de Cavendish e desde o começo da viagem começa seu sofrimento.

Acometido por várias doenças enfrentadas pelos marinheiros da época, Anthony fica entre a vida e a morte durante a viagem ao Brasil, além de enfrentar o mau tempo. Quando finalmente chegam a nossa costa ele e outros moribundos são abandonados na praia à própria sorte e como que por um milagre consegue se recuperar, porém é capturado pelos portugueses e passa a viver como um escravo tendo que trabalhar em engenhos, carregando navios com pau-brasil e em expedições para negociar com os índios, é numa dessas expedições que ele decide ficar em uma tribo.

Em meio a todas essas aventuras existe um relato bem cru dos maus tratos sofridos por prisioneiros e escravos dos portugueses, tendo ele mesmo sido vitima do ódio de um feitor que o açoitava sem motivo algum e o forçava a trabalhar sem descanso a ponto de ter suas roupas estragadas e ficado nu durante meses enquanto trabalhava no engenho, do comportamento dos homens da época lutando para salvar suas próprias cabeças e das negociações com os índios que também faziam escravos de outras tribos e do canibalismo praticado por estes povos primitvos, onde Knivet quase foi canibalizado se não tivesse dito ser francês quando foi capturado por uma das tribos inimigas dos portugueses, num cenário onde o mais importante para os colonos era o ouro sem serventia alguma para os nativos, os índios. Em um trecho ele relata um desses atos de salvageria (spoiler):

Depois de ter dito isso, ficou atrás do português e bateu-lhe na nuca de tal forma que o derrubou no chão e, quando ele estava caído, deu-lhe mais um golpe que o matou. Pegaram então um dente de coelho, começaram a retirar-lhe a pele e carregaram-no pela cabeça e pelos pés até as chamas da fogueira. Depois disso, esfregaram-no todo com as mãos de modo que o que restava de pele saiu e só restou a carne branca. Então cortaram-lhe a cabeça, deram-na ao jovem que o tinha matado e retiraram as vísceras e deram-nas às mulheres.

Os fatos relatados por Anthony Knivet nos mostram de forma crua como era a vida no Brasil colônia e como eram as relações entre colonizadores em meio a guerras e disputas por territórios com outros povos europeus e índios também divididos entre esses povos.

sexta-feira, julho 29, 2016

A magnifica Joan Root e a África selvagem

Joan Root


Nessa resenha do livro "Na África Selvagem" iremos acompanhar o jornalista americano Mark Seal que ficou curioso ao ler uma nota sobre o assassinato de uma senhora no Quênia. A senhora em questão era a produtora de filmes sobre a natureza Joan Root, Mark escreveu um artigo sobre a vida e obra da autora para a revista Vanity Fair. Posteriormente viajou para a África onde passaria três anos fazendo uma pesquisa minuciosa sobre a vida de Joan Root, da infância até o fatídico dia de sua morte.

A tímida Joan Root era filha de um cafeicultor queniano e durante a infância não recebeu muita atenção por partes dos pais que seguiam regras de alguns livros que ensinavam a não mimar os filhos e ainda bebê quando chorava seus pais seguiam a orientação de tais livros sobre não intervir e esperar que o bebê parasse. Quando tinha idade suficiente foi mandada a um colégio interno na Suíça onde concluiu seus estudos e quando voltou ajudou seu pai em seu novo empreendimento, a criação de safáris na região de Nairobi, foi o pai de Joan, Edmund Thorpe, que iniciou o lucrativo negócio de safáris na África e Joan se tornou seu braço direito na administração dos negócios.

Foi quando ela conheceu seu futuro marido e parceiro de aventuras Alan Root. Alan era, ao contrário de Joan, extrovertido e exibicionista, mas também um apaixonado pela vida selvagem desde a infância quando se mudou para África com o pai. Juntos Alan e Joan formaram um dupla imbatível na captura de cenas da vida selvagem e passaram anos se dedicando a filmar a migração dos animais pelo Quênia. Filmaram os temidos gorilas, elefantes, serpentes perigosas, sobrevoaram vulcões com aviões e um balão. Tudo parecia perfeito até Alan se envolver com outra mulher a abandonar Joan, foi então que ela passou a dedicar-se a preservação da natureza na região do lago Naivasha onde ela e seu ex-marido tinham comprado uma casa, que era seu refúgio entre as filmagens.

Joan lutou contra a instalação de floriculturas nas margens do rio, a troca do café pelas flores trouxe uma serie de consequências para a natureza local, além de agrotóxicos que acabam no lago, as flores trouxeram uma enorme quantidade de pessoas em busca de emprego, aos poucos foi se estabelecendo a favela conhecida como Karagita e a pesca descontrolada acabava com o lago e a caça ilegal afastava e acabava com as muitas espécies animais que antes eram abundantes naquelas terras. Ela fez o que pode para preservar a vida selvagem local, por causa disso comprou briga com muitas pessoas de fazendeiros a pescadores e por fim foi morta em 13 de janeiro de 2006 por homens encapuzados armados com fuzis AK-47.

A história de Joan Root se mistura a história do Quênia e suas transformações, Seal nos mostra como a história do Quênia desde o estabelecimento dos ingleses naquelas terras até os dias atuais moldou o que o país é hoje, um lugar violento e o mesmo tempo fascinante. Joan Root foi mais que uma ativista, dedicou seu amor a proteger aquilo que acreditava. Morreu por tentar mudar a forma como as pessoas tratam a natureza que morre cada vez mais rápido pelas mãos humanas.

quinta-feira, julho 28, 2016

O livro enquanto produto

CEO da Amazon


Em tempos de “revolta” e campanhas como a #ValorizeOBooktube uma coisa é certa o tratamento que damos aos livros vai além do consumidor-produto, é uma relação especial e diferenciada, talvez pelo marketing dos livros serem baseados nas emoções e não em especificações técnicas. Vou dar a minha opinião de quem não tem parceria com ninguém.

Quando se fala em blogs e parcerias rolam sempre comparações entre o que acontece nas parcerias entre marcas e blogueiros de moda e beleza e a relação entre editoras e blogs literários. Alguns enxergam a relação com algo a mais que receber livros com maus olhos, como se fosse algum crime. Não estou dizendo que as parcerias precisam seguir os mesmos modelos que outros seguimentos, porém é preciso que exista um ganho de alguma forma pelo simples fato de você dedicar seu tempo para aquilo, mesmo que você faça por prazer. O que algumas pessoas não conseguem ou não querem enxergar é que quando você se dedica a leitura de algum livro de parceria, mesmo que você queira muito ler, a leitura não é só pra você, a leitura é para o seu parceiro/empresa que espera um resultado.

Tentando ser mais prático, as editoras investem em direitos autorais para uma obra ou todas as obras de um certo autor, aí eles vão contratar tradutor (caso o autor seja estrangeiro), designer, revisor, gráfica, irão investir em marketing pra que você deseje aquele livro mais que tudo. E claro como leitores isso nos atrai, com a diferença de que quem tem parceria acaba fazendo parte do serviço de marketing para essas editoras. Tô falando coisas óbvias? Tô, mas o que eu vejo é que mesmo que nós leitores saibamos disso não queremos enxergar as coisas dessa forma. Talvez essa seja a razão pela qual pensamos que receber em dinheiro para ler seja algo ultrajante.

Faca de dois gumes: Ao mesmo tempo em que é preciso que haja algum tipo de incentivo a mais existe a ideia de que com algum tipo de remuneração as resenhas deixariam de ser resenhas verdadeiras e seriam sempre positivas, muitos fantasmas rondam a questão primeiro pelo medo de que falar mal de um livro de parceiro pode ser uma porta fechada no futuro, mas esse medo já não existe mesmo sem remuneração alguma? Lembrando que muitos blogs, canais e instagrans literários pertencem a jovens que ainda estão em período escolar ou começando a faculdade e ainda são muito dependentes dos pais. Será que esses jovens não pensam que fazendo resenhas negativas podem perder a parceria no futuro ou ainda se forem cobrar algo além de livros, além de perder a parceria serão vistos com maus olhos por novos parceiros em potencial? Porque claro quem não é tão conhecido nesse meio pode ser substituído facilmente na próxima seleção.

Já que eu cheguei no ponto seleção vou falar coisas obvias mais uma vez, sobre o processo em si é aquele coisa que a maioria já deve saber, todo ano editora X abre seleção, interessados preenchem um formulário, muitas vezes com perguntas absurdas e sem sentido, e ficam aguardando o resultado, enquanto isso as editoras vão analisar principalmente os números, porque sim amiguinhos vivemos num mundo em que antes de sermos pessoas, somos números. Depois disso elas divulgam os números de interessados na parceria e o resultado nas redes sociais ou num blog da editora e mandam um email individual avisando se foi selecionado ou não, caso tenha sido eles te passarão informações de como funciona a parceria. Claro que eles tentam fazer tudo parecer mais amigável possível independente do resultado, afinal o marketing está aí, tanto que a cada ano cresce mais o número de interessados em parcerias.

Resumindo se você que é parceiro de um negócio que gera lucro por quê não ser remunerado de alguma forma?